Vivendo o Reino em Família

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História das Missões Cristãs - Por Eguinaldo Hélio



História das Missões Cristãs

A Igreja nasceu missionária! Ela nasceu para levar a mensagem de Deus a todas as nações. Não foi uma mudança de método ou uma nova visão no meio de seu percurso. Não foi uma ideia que surgiu de repente, mas é algo que está presente em seu “DNA”.
O Cristo ressurreto comissionou a Igreja ao “ide” para todas as nações. Associou o poder advindo com a vinda do Espírito Santo ao testemunho mundial. Entretanto, foi no dia a dia de seu ministério que Ele foi semeando as sementes da universalidade, antecipando uma visão além do estreito círculo judaico. Ele disse que muitos viriam do Oriente e do Ocidente e se assentariam à mesa com Abraão, Isaque e Jacó (Mt 8:11), que Deus preferiu uma viúva e um general gentio a alguém do povo de Israel (Lc 4:25- 27), que o Evangelho seria pregado em todo o mundo (Mt 26:13), e somente então viria o fim (Mc13:10), que havia outras ovelhas que não eram daquele aprisco (Jo 10:16) e que não haveria mais um lugar geograficamente específico para adoração (Jo 4:20-21).
Mesmo que o desenvolvimento missionário na Igreja primitiva tenha levado algum tempo, ele era inevitável. A barreira espiritual entre judeus e gentios havia sido desfeita na cruz. Era só uma questão de tempo. Por maiores que fossem as dificuldades para rompê-la, a natureza da própria mensagem se encarregaria de fazê-lo. A expressão “a todos quantos o Senhor chamar” (At 2:39), contida no primeiro sermão de Pedro, é uma prova disso.

Primórdios missionários

Missões fora do âmbito judaico só se efetivaram com a igreja de maioria gentia em Antioquia (Atos 13). A comissão do Espírito Santo – “Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chama- do” (At 13:2) – pode ser considerada o início do movimento missionário. Eram agora enviados oficialmente às nações gentias. Antecipando este princípio “oficial” houve a propagação do Evan gelho fora dos limites geográficos da Judeia, Galileia e Samaria por outras formas. Atos dos Apóstolos, em sua maior parte, foca as viagens missionárias de Paulo. O trabalho missionário dos demais apóstolos deverá ser pesquisado em outras fontes históricas. Todavia, viagens missionárias não foram a única forma como o Evangelho se propagou no mundo de então. Isso também aconteceu de modo espontâneo, o que vale a pena considerarmos.

Missões inversas – Vindo e ouvindo

Antes que o “ide e pregai” fosse posto em prática, houve no dia de Pentecostes o “vinde e ouvi” em uma escala “mundial”, se levarmos em consideração os limites geográficos conhecidos. As pessoas de todas as partes vinham a Jerusalém para esta e outras festas e depois retornavam. Estas ocasiões foram eficazes para uma primeira propagação do Evangelho, muito semelhante àquela usada pelas missões modernas ao evangelizar comunistas e muçulmanos fora de seus países de origem. Em Atos 2.8-11 lemos: “Como pois os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia [regiões do Oriente Médio], e Judeia, e Capadócia, e Ponto, e Ásia, e Frígia, e Panfília [regiões da Ásia Menor, atual Turquia], Egito e partes da Líbia, junto a Cirene [regiões do norte da África], e forasteiros romanos (tanto judeus como prosélitos), e cretenses [Europa], e árabes [península arábica], todos os temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus”.
Dessa forma, muitas pessoas de muitos lugares foram alcançadas com a mensagem do Evangelho pregado por Pedro naquela ocasião e retornaram para seus países de origem levando a salvação. Haviam visto o sobrenatural de Deus quando aqueles galileus falaram em seu próprio idioma. Foram impactadas pela pregação e era natural que testemunhassem ao retornar para sua terra.

O caso de Roma

Quem iniciou a igreja em Roma? Não há no Novo Testamento qualquer passagem que lhe atribua um fundamento apostólico, quer de Pedro, quer de Paulo. A tradição também não é conclusiva a esse respeito. A questão é que já havia uma igreja nessa cidade digna até de receber um dos documentos mais importantes do cristianismo, a Epístola aos Romanos, escrita pelo apóstolo dos gentios. Como, pois, nasceu aquela comunidade? “É bem possível que tenham sido os convertidos judeus quando no dia de Pentecostes, vindos de Roma a Jerusalém a fim de participarem daquela festa religiosa que voltaram à sua cidade e através de seu testemunho formou-se um núcleo original que formou aquela igreja local” (R. N. Champlin, Novo Testamento interpretado versículo por versículo, Hagnos, p. 178). Não há por que pensar que esse foi o único caso em que os eventos do dia de Pentecostes resultaram em propagação do Evangelho para outras terras. Há coisas que só a eternidade poderá mostrar.

O caso da Etiópia

Outro caso semelhante é o que se refere ao eunuco etíope. Por que Deus tiraria Filipe de um bem-sucedido trabalho de evangelização em Samaria para pregar a um único indivíduo se não houvesse um propósito maior? Embora a narrativa sobre esse etíope tenha terminado dizendo apenas que ele “seguiu jubiloso o seu caminho”, a tradição não se conformou com essa interrupção abrupta. É bom lembrar que, segundo uma profecia de Davi em Salmos 68.31, a Etiópia cedo estenderia suas mãos a Deus, o que em parte já havia se cumprido por ocasião da visita da rainha de Sabá a Salomão. Ela teria levado a fé no Deus único e a propagado entre o seu povo. Verdadeira ou não, as tradições são muito fortes. “Por certa providência divina, quando o anúncio do Evangelho do Salvador avançava diariamente, foi para ali levado um príncipe dos etíopes, conforme costume que ainda prevalece de serem governados por uma mulher, sendo o primeiro dentre os gentios que receberam de Filipe os mistérios da palavra divina.
O apóstolo, conduzido por uma visão, assim o instruiu e ele, segundo se diz, tornando-se a primícia dos crentes em todo o mundo, foi o primeiro que, voltando para o seu país, proclamou o conhecimento de Deus e a habitação salutar de nosso Senhor entre os homens. De modo que a profecia obteve seu cumprimento por meio dele: ‘A Etiópia estende suas mãos para Deus’” (Eusébio de Cesareia, História eclesiástica, Livro 2, cap. I, CPAD). E ainda temos este registro: “As tradições históricas dizem que ele veio a pregar o Evangelho no Ceilão e na Arábia, bem como na ilha de Trabrobana, no mar Vermelho, até que finalmente sofreu martírio” (Fabricii Lux Evang., p. 115, 708). Mesmo que não possam ser definitivamente confirmadas em seus detalhes, seu valor permanece.

Migração missionária

Outra forma pela qual o Evangelho se espalhou foi através do que podemos denominar de “migração missionária”, isto é, os crentes foram deslocados de uma área geográfica para outra levando consigo a sua fé. Em Atos 8.1-4 temos uma referência a este acontecimento: “E fez-se, naquele dia, uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos foram dispersos pelas terras da Judeia e da Samaria, exceto os apóstolos. E uns varões piedosos foram enterrar Estêvão e fizeram sobre ele grande pranto. E Saulo assolava a igreja, entrando pelas casas e, arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão. Mas os que andavam dispersos iam por toda parte anunciando a palavra”.
Essa migração compulsória espalhou o Evangelho, antes centrado em Jerusalém, por toda a região. Mas essa forma de propagação não se limitou a essas terras e acabou por abranger limites ainda mais amplos, como vemos em Atos 11.19-21: “E os que foram dispersos pela perseguição que sucedeu por causa de Estêvão caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra senão somente aos judeus. E havia entre eles alguns varões de Chipre e de Cirene, os quais, entrando em Antioquia, falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus. E a mão do Senhor era com eles; e grande número creu e se converteu ao Senhor.” Este tipo de propagação missionária se repetiu na história, adquirindo características diferentes.
Basta lembrar os inúmeros e diversificados grupos cristãos que colonizaram a América do Norte, fugindo da perseguição na Europa, como os huguenotes. Mesmo sendo humanamente impossível acompanhar todos os resultados desse tipo de movimento, no livro de Atos temos dois exemplos que testificam sua importância. Embora nunca tenha sido visto como um método missionário propriamente dito, foi aplicado muitas vezes quando missionários se mudavam em grande número para uma área não evangelizada e foi muito eficaz em seus propósitos.

Apenas o começo

Estas são as primeiras pinceladas na História das Missões Cristãs. E nossa tela ainda está quase total mente branca. Até chegarmos ao fim dessa imensa pintura que é o cristianismo em nossa época, muita tinta terá sido gasta. A narrativa inspirada do livro de Atos dos Apóstolos é uma pequena parcela do progresso naquela época e ela nos fala das viagens missionárias de Paulo. E os doze apóstolos, agora com Matias substituindo Judas, o que fizeram? Quais foram as suas obras? Que feitos realizaram? Onde pregaram o Evangelho? Como obedeceram ao “ide”? Todas essas questões são pertinentes à História das Missões. Nem todos foram teólogos como João e Pedro ou escreveram alguma epístola como Judas, mas nem por isso sua importância foi menor e não deve ser lançada no esquecimento. A grande Epopeia Cristã está apenas começando.

Eguinaldo Hélio de Souza - Apologista, escritor, jornalista, pastor, professor de Teologia e História da Igreja no Vale da Bênção, Araçariguama – SP


Texto originalmente publicado na Revista Povos e Línguas – Ano 1 – Nº 1

Fonte: http://www.povoselinguas.com.br/historia-das-missoes-cristas/